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Beber na adolescência pode mudar o cérebro em desenvolvimento?

Canguru News

Episódios de consumo excessivo de álcool durante a adolescência podem prejudicar a maturação cerebral

5 min de leitura

29 de setembro de 2026

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Beber na adolescência pode mudar o cérebro em desenvolvimento?

O experimento procurou reproduzir consumo de grande quantidade de álcool em pouco tempo

Chega uma fase em que os filhos começam a sair sem os pais, vêm os convites para festas, ganham mais autonomia e passam a circular em ambientes em que provavelmente haverá bebida alcoólica. Mesmo que em casa a orientação seja clara, é uma idade em que eles querem experimentar, desafiar limites, pertencer. Nessa situação, alguns acabam bebendo. Mas qual será o efeito disso para um cérebro ainda em desenvolvimento?

 

Uma pesquisa brasileira traz novas pistas para entender por que é importante ficar alerta, sobretudo nesse momento da vida. Experimentos feitos por cientistas da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) mostraram que, mesmo depois de adultos, camundongos que haviam sido expostos ao álcool na adolescência apresentaram maior tendência a assumir riscos. Em alguns casos, eles também passaram a consumir mais álcool quando tiveram acesso à bebida na vida adulta.

 

Apesar de serem estudos ainda precoces, feitos em modelos animais e que, portanto, não permitem concluir que exatamente as mesmas alterações ocorrerão em adolescentes humanos, o estudo é importante. Ele ajuda a investigar mecanismos pelos quais o álcool pode interferir em um cérebro que ainda não terminou de amadurecer.

 

Mesmo que o adolescente pareça crescido (e eles juram que já sabem de tudo!), ele está em um momento da vida em que o cérebro ainda não terminou o processo de desenvolvimento. Para os pais, é uma contradição difícil. Ao mesmo tempo em que o filho pede mais liberdade, começa a tomar as próprias decisões e, muitas vezes, já tem tamanho e aparência de adulto, ele ainda não é totalmente maduro para isso.

 

“O cérebro é um dos últimos órgãos a finalizar essa formação”, explica Karina Possa Abrahão, professora do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp e pesquisadora responsável pelo trabalho.

 

Uma das áreas que ainda passa por mudanças é o córtex pré-frontal, envolvido em funções como tomada de decisões e controle dos impulsos. Segundo a pesquisadora, essa e outras regiões relacionadas só completam seu desenvolvimento em humanos por volta dos 25 anos.

 

Isso é particularmente importante quando falamos sobre álcool. Afinal, a adolescência já é naturalmente marcada por maior exploração, busca de novidades e comportamentos de risco. Os pesquisadores queriam entender o que acontece quando episódios intensos de consumo de álcool atravessam justamente esse período de amadurecimento.

 

Uma ressalva: não estamos falando de simplesmente “experimentar um gole”. No trabalho em questão, os cientistas não investigaram o efeito de um adolescente provar uma pequena quantidade de bebida em uma ocasião isolada. O experimento procurou reproduzir episódios de binge drinking, que é o consumo de grande quantidade de álcool em pouco tempo, suficiente para provocar intoxicação.

 

Os camundongos receberam quatro doses ao longo de sua adolescência, período que nesses animais dura apenas três a quatro semanas. A quantidade foi ajustada proporcionalmente à duração dessa fase. “Em uma pessoa, seria o equivalente a, mais ou menos, umas duas intoxicações por mês durante toda a adolescência. É um consumo muito pesado”, ressalta Abrahão.

 

Esse padrão é relevante para uma conversa que você precisa ter desde já com seu filho: não é preciso beber todos os dias para que o consumo seja preocupante. Episódios em que o jovem bebe muito em uma única ocasião também importam.

 

Entre adolescentes brasileiros, não é uma realidade incomum. Segundo o 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, citado pela Agência FAPESP, 5% dos adolescentes de 12 a 17 anos tiveram pelo menos um episódio de consumo excessivo de álcool nos 30 dias anteriores à pesquisa. Entre jovens de 18 a 24 anos, o percentual foi de 20,5%.

 

No estudo com os camundongos, os pesquisadores encontraram resultados diferentes dependendo do sexo dos animais e do momento da adolescência em que ocorreu a exposição. Quando a intoxicação aconteceu no início da adolescência, os machos apresentaram comportamentos de risco mais intensos posteriormente, já adultos. Nas fêmeas, esse efeito não apareceu da mesma forma, mas aquelas expostas precocemente passaram a consumir mais álcool quando tiveram acesso à substância na vida adulta.

 

Quando a exposição ocorreu no final da adolescência, o aumento do comportamento de risco na vida adulta apareceu tanto em machos quanto em fêmeas. Os pesquisadores ainda estão investigando os mecanismos envolvidos nessas diferenças.

 

“O álcool pode causar um prejuízo da maturação final do cérebro, tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda”, afirma a pesquisadora Abrahão.

 

Nem sempre uma pessoa que bebe na adolescência vai ficar com um “cérebro adolescente” para o resto da vida. No entanto, vale saber que algumas alterações comportamentais permaneceram nos animais, entre elas uma maior propensão a assumir riscos. De acordo com os especialistas envolvidos, ainda será necessário investigar até que ponto esses mecanismos se reproduzem em seres humanos.

 

Outro ponto importante é de que a maioridade não representa uma espécie de interruptor biológico que termina o desenvolvimento cerebral de um dia para o outro, assim que o adolescente completa 18 anos. A equipe já realizou experimentos com camundongos em uma idade considerada equivalente a cerca de 20 anos em humanos e encontrou efeitos semelhantes sobre o comportamento de risco. Em adultos mais velhos, a literatura indica que o álcool continua podendo provocar prejuízos, mas o impacto tende a diminuir conforme o cérebro amadurece.

 

Para um adolescente, consequências que parecem distantes podem ser difíceis de dimensionar. Por isso, pode fazer mais sentido explicar por que a idade importa e por que uma noite em que todo mundo bebe muito não é necessariamente inofensiva só porque acontece de vez em quando.

 

O estudo também ajuda desfazer uma ideia comum: a de que o álcool só é um problema para quem bebe sempre ou todos os dias. O experimento da Unifesp investigou justamente episódios espaçados, mas muito intensos, de intoxicação.

 

A adolescência não é apenas uma fase de mudanças emocionais e sociais. É também um período em que estruturas cerebrais importantes para controlar impulsos, avaliar riscos e tomar decisões ainda estão amadurecendo. Talvez seja exatamente quando seu filho começa a pedir liberdade, o momento em que essa conversa precise ganhar mais espaço. O ideal é falar sobre isso bem antes da primeira festa.

Fonte: Agência Fapesp

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