Informativos
“Ler também é coisa de menino”: o efeito de ver ídolos masculinos com um livro na mão
Canguru News
Ao compartilhar leituras, o jogador Gustavo Scarpa, do Atlético - MG, uniu futebol e literatura.

Ver um adulto lendo por prazer comunica uma mensagem diferente de ouvir que “ler é importante”
Um jogador de futebol falando sobre Tolstói. Você há de concordar que este não é um tipo de conteúdo que vemos com frequência no feed e nos stories de atletas desse esporte. Para um menino que cresceu associando seus ídolos à bola, à competição e ao desempenho físico, é um conteúdo que pode representar algo maior. E os meninos estão assistindo! Assim, eles percebem que a leitura está entre as atividades de um esportista que eles admiram. Eles entendem que homens também se interessam por histórias, falam sobre o que sentem e passam tempo fazendo algo que não tem relação direta com desempenho físico.
Nos últimos dias, Gustavo Scarpa, jogador do Atlético-MG, chamou atenção ao compartilhar com mais frequência suas leituras nas redes sociais. Em duas semanas, quatro resenhas publicadas no YouTube somaram mais de 800 mil visualizações, segundo levantamento publicado pelo UOL. Entre os livros indicados estavam A Noite, de Elie Wiesel, Senhor das Moscas, de William Golding, e A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói. A repercussão repercutiu nas vendas: o livro de Tolstói alcançou o topo dos mais vendidos. Outra consequência imediata – e muito legal!: os torcedores se uniram e criaram a Galeitura, um clube de leitura inspirado nas indicações do jogador.
Com isso, é importante lembrar que crianças e adolescentes também constroem suas referências observando os adultos e os ídolos que admiram. Os famosos, sejam eles artistas, cantores, atores, atletas ou outros, precisam compreender a responsabilidade que têm na influência aos jovens.
Livros e masculinidade: por que precisamos falar sobre isso?
Há uma diferença na relação de homens e mulheres com os livros e os números mostram isso. De acordo com o Panorama do Consumo de Livros no Brasil, realizado pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData, entre os brasileiros que compraram pelo menos um livro nos 12 meses anteriores à pesquisa, 61% eram mulheres e 39% eram homens. A pesquisa também encontrou uma penetração de consumidores de livros maior entre mulheres: 17%, contra 12% entre homens.
Na escola, uma diferença semelhante aparece no desempenho em leitura. No PISA 2022, as meninas brasileiras tiveram desempenho médio 17 pontos superior ao dos meninos em leitura. Além disso, 54% dos meninos brasileiros ficaram abaixo do nível 2 de proficiência, contra 47% das meninas.
Isso não significa que meninos não gostem de ler ou que exista uma explicação simples para a diferença. Mas indica que a relação com a leitura é atravessada por fatores que vão além da capacidade individual de cada criança. Um deles pode ser exatamente o repertório de comportamentos que meninos aprendem a associar à masculinidade.
O que um menino entende que “homem faz”?
Desde cedo, crianças recebem mensagens — algumas explícitas, outras muito sutis — sobre o que seria adequado para meninos e meninas. Quem são os personagens que aparecem como heróis? Que adultos os meninos veem como modelo? Quais atividades são apresentadas como interessantes para eles? E quais parecem pertencer mais ao universo das meninas?
Uma pesquisa apresentada pela página Papo de Homem, chamada O Silêncio dos Homens, aponta que pai, homens da família, amigos e personagens fictícios estão entre as principais referências de masculinidade citadas pelos entrevistados. O levantamento reuniu mais de 40 mil pessoas no Brasil.
Isso ajuda a entender por que a representação importa. Se um menino vê homens que admira praticando esportes, competindo e demonstrando força, ele aprende que essas experiências fazem parte do universo masculino. Mas, se também vê esses mesmos homens lendo, falando sobre sentimentos, demonstrando curiosidade ou simplesmente fazendo algo por prazer, o repertório se amplia.
Um jogador de futebol sozinho tem poucas chances de transformar a relação de todos os meninos com a leitura. Mas porque ele acrescenta uma possibilidade àquilo que uma criança pode imaginar para si.
O jogador não está apresentando a leitura como uma ferramenta para melhorar o desempenho em campo. Ele fala de livros porque é leitor e compartilha o que pensa sobre as histórias. A repercussão mostra o potencial que existe quando um hábito cultural encontra alguém que já possui uma enorme audiência entre os jovens.
A Galeitura, comunidade criada por torcedores a partir das indicações do jogador, já havia ultrapassado 55 mil seguidores no Instagram menos de uma semana após sua criação, segundo o UOL. Depois de Gustavo, outros jogadores do Atlético também começaram a aparecer publicamente lendo.
Ter um ídolo dizendo que ler é bom pode ajudar a fazer com que esse encontro com os livros aconteça na vida de outras pessoas. Foi o que disse a estudante Carolina Marques, criadora da Galeitura, ao UOL Ecoa, sobre essa dimensão da referência. Para um menino que talvez nunca tenha pensado em procurar um romance na livraria, isso pode ser uma porta de entrada.
Leia o que você quiser
Uma das principais armadilhas quando adultos tentam aproximar crianças dos livros é a de transformar a leitura em mais uma obrigação. Um menino que gosta de futebol pode começar por uma biografia de atleta, preferir quadrinhos, se interessar por fantasia, ficção científica, terror ou humor. O objetivo não é determinar o tipo de literatura, mas ajudá-lo a descobrir que os livros também podem pertencer ao seu universo.
O próprio movimento em torno de Scarpa mostra isso. O jogador fala de clássicos, mas também compartilha leituras que não necessariamente considera suas favoritas. Em uma publicação recente, por exemplo, comentou que Não Perturbe, de Freida McFadden, não era muito seu estilo, mas que valia a pena experimentar algo diferente.
Ler por prazer também é uma possibilidade
Outro ponto interessante levantado pelo Papo de Homem é a associação histórica entre masculinidade e utilidade. Um texto publicado pela página sobre homens e ficção discute justamente a ideia de que a leitura masculina muitas vezes é apresentada como algo que precisa ter uma finalidade prática: ajudar na carreira, ensinar uma habilidade, aumentar conhecimento ou melhorar o desempenho.
A ficção ocupa outro lugar. Um romance não precisa ensinar uma habilidade imediatamente aplicável. Mas pode provocar uma pergunta, apresentar uma vida diferente, despertar uma emoção ou simplesmente ser uma história boa de acompanhar. Ler pode ser simplesmente passatempo, curiosidade, imaginação, prazer e descanso.
O que os pais podem fazer?
Algumas atitudes são simples, mas costumam ter bons efeitos em casa:
Leia na frente do seu filho. Ver um adulto lendo por prazer comunica uma mensagem diferente de ouvir que “ler é importante”.
Deixe que ele escolha. Quadrinhos, mangás, livros de futebol, aventura, fantasia e humor também podem ser portas de entrada.
Não transforme todo livro em tarefa escolar. Nem toda leitura precisa terminar em resumo, questionário ou lição.
Mostre homens que leem. Um pai, avô, professor, irmão mais velho, atleta ou outro homem que a criança admira pode ampliar a ideia de quem é um leitor.
Converse sobre o que você está lendo. Não precisa explicar a história nem ensinar literatura. Dizer “eu gostei desse personagem” ou “essa parte me fez pensar em uma coisa” já mostra que livros podem provocar conversas.
Não trate a leitura como algo “feminino”. Se meninas aparecem mais frequentemente como leitoras, isso não significa que livros sejam naturalmente mais interessantes para elas. Significa que há espaço para ampliar as referências oferecidas aos meninos.



