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Cuidados com a Saúde

Uso excessivo de telas causa TDAH em crianças?

Canguru News

Excesso de celular, videogame e outros dispositivos pode afetar atenção, sono e comportamento e alguns sinais podem se confundir com os do transtorno

6 min de leitura

11 de setembro de 2026

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Uso excessivo de telas causa TDAH em crianças?

Entenda como diferenciar as situações e saiba como ajudar a criança a encontrar um equilíbrio

Sabe quando parece que seu filho não consegue prestar atenção em nada? Só quer ficar no celular? E quando começa a jogar muda tanto o comportamento que parece outra criança? São reclamações cada vez mais presentes, em lares de todo o mundo. As telas fazem parte da rotina das famílias e, muitas vezes, conciliar tecnologia, escola, brincadeiras, sono e vida familiar é uma tarefa complicadíssima.

 

O desafio, de fato, está em quase todas as casas. Pelo menos 96% das crianças e adolescentes com idades entre 9 e 17 anos acessam a internet diariamente, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil. O levantamento também mostra que 82% assistem a vídeos, filmes ou séries on-line e 79% usam a internet para trocar mensagens instantâneas.

 

Muitos pais se perguntam se esse excesso de telas pode levar a um transtorno que também parece ser cada vez mais comum, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

 

A resposta não é tão simples. O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento relacionada principalmente a fatores genéticos. “O uso excessivo de dispositivos digitais pode levar ao surgimento de sintomas como falta de atenção, hiperatividade, inquietação, impulsividade, ansiedade, irritabilidade, insônia e sono fragmentado, características também comuns na trajetória de desenvolvimento dos indivíduos diagnosticados com TDAH”, explica o neurologista pediátrico Antonio Carlos de Farias, do Hospital Pequeno Príncipe (PR).

 

Uma criança que passa muitas horas no celular, no videogame ou no computador pode, sim, começar a ter mais dificuldade para se concentrar. Mas isso, sozinho, não significa que ela tenha TDAH. Mas a diferença não está só no tempo de tela. Na verdade, uma das pistas mais importantes pode estar na história da criança.

 

No TDAH, os sinais aparecem desde os primeiros anos de vida e não ficam restritos a uma situação específica. A criança pode apresentar dificuldades de atenção, hiperatividade ou impulsividade em diferentes ambientes — em casa, na escola e durante outras atividades.

 

Já quando as mudanças de comportamento estão relacionadas principalmente ao excesso de estímulos digitais, é possível perceber uma relação mais clara com a rotina de uso. A criança passa horas concentrada em um jogo ou vídeo, mas demonstra dificuldade para permanecer em uma tarefa escolar, brincar sem estímulos eletrônicos ou se interessar por atividades mais tranquilas.

 

A redução das telas e a reorganização da rotina também podem trazer mudanças importantes. Por isso, observar o comportamento da criança como um todo é mais importante do que tentar identificar um diagnóstico a partir de um único sinal.

 

Também é importante lembrar que vídeos curtos, jogos, notificações e redes sociais são construídos para prender a atenção. A cada novo conteúdo, fase, mensagem ou estímulo, existe a possibilidade de uma nova recompensa. Esse mecanismo envolve circuitos cerebrais relacionados à motivação e à recompensa, que utilizam neurotransmissores como a dopamina. O problema não é a dopamina. Ela faz parte do funcionamento normal do cérebro. A exposição contínua a estímulos rápidos e altamente atraentes, sim, pode ser uma questão.

 

Depois de passar muito tempo nesse ambiente, uma atividade como ler um livro, fazer uma lição ou esperar para conversar com alguém pode parecer pouco interessante. É aí que muitos pais notam que apesar de conseguir ficar concentrada durante muito tempo em um videogame, a criança reclama quando precisa dedicar cinco minutos de tarefa escolar.

 

Não, seu filho não está “fazendo corpo mole”, como se diz por aí. A diferença entre os níveis de estímulo pode tornar algumas atividades mais difíceis de sustentar. O excesso de telas também pode interferir no sono, e uma criança que dorme mal tende a ficar mais cansada, irritada e desatenta no dia seguinte.

 

Além de limitar o tempo

Quando o assunto é tela, é tentador perguntar apenas “quantas horas por dia?”. Mas o número, sozinho, não diz tudo. Também é importante observar o que a criança está fazendo na tela, em que horário, com que frequência e o que está deixando de fazer por causa disso.

 

Uma hora de um conteúdo adequado à idade, acompanhada por um adulto, não produz necessariamente o mesmo impacto que uma hora de vídeos ou jogos durante a madrugada, por exemplo.

 

O uso começa a preocupar quando passa a ocupar o espaço do sono, das atividades físicas, dos estudos, das brincadeiras, da convivência familiar e das relações sociais.

 

Para crianças e adolescentes com TDAH, o cuidado é ainda mais importante, já que eles podem ser particularmente atraídos por atividades que oferecem recompensas imediatas.

 

Quando existe dúvida sobre o impacto das telas no comportamento, uma das estratégias é reorganizar a rotina de forma consistente. Tente estabelecer momentos do dia sem celular, retirar os aparelhos do quarto, diminuir notificações e evitar o uso de dispositivos antes de dormir. Também vale resgatar atividades que não dependam de estímulos digitais: brincar, desenhar, ler, praticar esportes, cozinhar, conversar ou simplesmente ficar entediado por alguns minutos.

 

Uma redução estruturada do uso digital por duas a quatro semanas já pode ajudar a observar mudanças no sono, no humor e na atenção. Mas é importante não transformar esse período em um “teste caseiro” para diagnosticar ou descartar TDAH. O diagnóstico depende de uma avaliação profissional, considerando o desenvolvimento da criança e seu comportamento em diferentes ambientes.

 

Algumas mudanças simples podem fazer diferença:

●     criar horários e lugares da casa livres de telas, especialmente durante as refeições;

●     evitar celulares, tablets e videogames antes de dormir;

●     manter os aparelhos fora do campo de visão durante os estudos;

●     reduzir notificações desnecessárias;

●     incentivar brincadeiras, leitura, atividade física e hobbies;

●     priorizar momentos de convivência com familiares e amigos;

●     ajudar a criança a se concentrar em uma atividade por vez, em vez de estimular a multitarefa.

 

Quando é hora de procurar ajuda

Toda criança se distrai, tem momentos de inquietude, perde a paciência ou passa por fases em que parece mais interessada no celular do que em qualquer outra coisa. O sinal de atenção é quando essas dificuldades são persistentes, aparecem em diferentes ambientes e começam a trazer prejuízos para a vida da criança.

 

Se desatenção, hiperatividade ou impulsividade estão presentes desde os primeiros anos e interferem na escola, em casa ou nos relacionamentos, vale conversar com o pediatra e buscar uma avaliação especializada.

 

Mais do que descobrir se “é o celular ou é TDAH”, o objetivo é entender do que aquela criança precisa. Às vezes, a resposta está em uma rotina mais equilibrada. Em outras situações, existe uma condição de neurodesenvolvimento que precisa ser investigada e acompanhada. Quanto antes a família consegue compreender o que está por trás daquele comportamento, mais fácil fica oferecer à criança o apoio de que ela realmente precisa.

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