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Adolescente sozinho e sem atividades? Estudo alerta para risco de envolvimento em violência

Canguru News

Pesquisa internacional com mais de 58 mil jovens mostra que o chamado “tempo livre desestruturado” está associado à maior envolvimento em delitos

5 min de leitura

22 de setembro de 2026

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Adolescente sozinho e sem atividades? Estudo alerta para risco de envolvimento em violência

No Brasil, cerca de 1,9 mil adolescentes participaram do estudo

Se você é mãe ou pai de adolescente, provavelmente já ouviu a frase: “Não tenho nada para fazer”. No meio da correria do dia a dia, pode parecer até positivo ter algumas horas livres para decidir o que quer fazer. Afinal, depois de escola, provas, cursos e compromissos, todo mundo precisa de um pouco de tempo sem agenda.

 

Mas um novo estudo internacional traz uma reflexão importante: quando esse tempo livre acontece sem supervisão adulta e sem atividades estruturadas, especialmente em determinados contextos, ele pode estar associado a um maior risco de envolvimento em situações de violência e delitos.

 

A conclusão faz parte de uma pesquisa que reuniu mais de 58 mil adolescentes de 21 países, incluindo cerca de 1,9 mil jovens brasileiros entre 13 e 17 anos. Os resultados foram divulgados pela Agência FAPESP e publicados na revista científica PLOS One.

 

Mas o que é exatamente “tempo livre desestruturado”?

Segundo a psicóloga Marina Rezende Bazon, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP) e coordenadora da equipe brasileira do estudo, trata-se daquele período em que o adolescente decide sozinho o que fazer, sem supervisão de adultos e sem participar de atividades estruturadas com objetivos educativos, culturais ou esportivos.

 

A pesquisa analisou esse tempo em dois ambientes principais: dentro de casa, especialmente relacionado ao uso da internet, e fora de casa, em ruas, bairros e espaços públicos sem monitoramento.

 

E aqui mora uma diferença importante: ter tempo para descansar, brincar, encontrar amigos ou simplesmente não fazer nada não é, por si só, um problema. O alerta está na combinação entre tempo sem estrutura, pouca supervisão e contextos de maior vulnerabilidade.

 

O estudo apontou que o fator mais fortemente associado ao envolvimento dos adolescentes em delitos é a convivência com pares que também praticam infrações. Logo depois aparece o chamado tempo livre desestruturado. “Quando juntamos pares infratores e tempo livre não estruturado, temos uma combinação especialmente problemática”, explicou Bazon à Agência FAPESP.

 

Não é que “adolescente que fica sozinho faz coisa errada”. Na verdade, o que a pesquisa aponta é um conjunto de circunstâncias que pode aumentar a exposição a situações de risco.

 

E o celular entra nessa história?

Até entra, mas não dá para resumir tudo ao tempo de tela. Uma das formas de tempo livre desestruturado analisadas pelos pesquisadores acontece justamente dentro de casa, especialmente na internet. A permanência prolongada em ambientes digitais sem mediação pode aumentar a exposição a conteúdos, grupos e situações associados a comportamentos de risco.

 

Ao mesmo tempo, a própria pesquisadora ressalta que a internet também é um espaço fundamental de convivência para os adolescentes e que não pode ser tratada simplesmente como algo negativo.

 

Por isso, para nós, que somos pais, é importante não resumir a preocupação com o uso de telas ao limite de tempo. Também é preciso entender como eles estão usando a internet, com quem conversam, que grupos frequentam, que conteúdos consomem... Há alguém incentivando comportamentos de risco? Será que o adolescente está sendo exposto a situações que não consegue administrar sozinho?

 

A pesquisa defende justamente a necessidade de acompanhamento familiar e mediação do uso da internet, além de políticas de educação e proteção digital.

 

Agenda toda preenchida?

O estudo não sugere que adolescentes precisem passar o dia inteiro ocupados. Aliás, tempo livre também é importante para o desenvolvimento. É nesse espaço que o jovem pode descansar, escolher o que fazer, encontrar amigos, descobrir interesses e conquistar autonomia.

 

A questão é a qualidade desse tempo e o contexto em que ele acontece. Os pesquisadores defendem a ampliação de atividades comunitárias de lazer, esporte e cultura que sejam realmente atrativas para os jovens e tenham objetivos socioeducativos, com acompanhamento de adultos ou educadores.

 

Um dado interessante: segundo a análise divulgada pela Agência FAPESP, uma redução de 20% no tempo livre não estruturado fora de casa esteve associada, em média, a uma redução de 9,6% na prevalência de delitos e de 7,4% na incidência de delitos na amostra total.

 

Isso não significa que matricular o filho em um esporte automaticamente vá impedir qualquer envolvimento com violência. O efeito depende da qualidade das atividades, da relação com a comunidade e das condições de vida desses adolescentes.

 

Um alerta também para as meninas

Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores: a participação feminina em delitos on-line cresceu, especialmente em ataques ofensivos relacionados à aparência física de outras pessoas. De acordo com Bazon, uma possível explicação é que a diferença na supervisão familiar entre meninos e meninas diminuiu no ambiente digital. Historicamente, meninas costumavam receber mais supervisão dos pais, mas isso não necessariamente acontece da mesma forma quando estão conectadas.

 

A pesquisa também identificou que meninas aparecem com maior frequência em situações classificadas como “vítima-agressor” — quando o adolescente sofre e prática violência. Esse grupo apresentou indicadores mais graves de sofrimento psíquico, problemas familiares e dificuldades escolares.

 

Não tem classe

Outro ponto importante do estudo é desconstruir a ideia de que violência juvenil seria um problema restrito a adolescentes pobres. Segundo a pesquisadora, os dados de “delinquência autorrevelada” mostram adolescentes envolvidos em infrações em diferentes classes sociais. O que muda, muitas vezes, é quem acaba sendo mais abordado pelas instituições de controle e pela polícia.

 

No Brasil, a pesquisa foi realizada em Ribeirão Preto e Sertãozinho, no interior de São Paulo, com estudantes de escolas públicas e privadas. Os questionários foram respondidos de forma anônima em tablets, e os pesquisadores utilizaram perguntas que buscavam identificar experiências de violência e comportamentos infracionais.

 

O que fazer?

Controlar o adolescente o tempo não é possível e nem seria saudável. Mas é importante tentar conhecer os amigos do filho, saber onde ele está, conversar sobre os ambientes que frequenta e estabelecer combinados sobre internet e saídas.

 

Você também pode ajudar seu filho a encontrar atividades que realmente façam sentido para ele — esporte, música, teatro, cursos, projetos, grupos culturais ou simplesmente encontros seguros com amigos.

 

Manter a porta aberta para a conversa é o principal. Autonomia é importante na adolescência, mas supervisão também.

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