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#BookTok: tendência estimula leitura entre crianças e adolescentes, mas exige atenção
Canguru News
Comunidade de leitores do TikTok transforma indicações de livros em pertencimento e ajuda a retomar gosto pela literatura

A comunidade que consome conteúdo sobre livros na rede social de vídeos curtos ganhou até nome: BookTok
Se você tem um adolescente em casa, talvez já tenha ouvido falar de um livro que nunca apareceu na lista da escola, mas, de repente, virou assunto só porque “todo mundo no TikTok está falando”. Pode ser um romance, uma fantasia, uma história de suspense... Em alguns clássicos, é a volta de um clássico escrito há mais de cem anos.
A comunidade que gera e consome conteúdo sobre livros na rede social de vídeos curtos ganhou até nome: BookTok. São publicações que trazem resenhas, indicações, listas, reações emocionadas, vídeos sobre personagens e até brincadeiras envolvendo algumas das histórias mais famosas.
E o fenômeno só cresce, viu? Só em 2025, vídeos publicados com a hashtag #BookTokBrasil ultrapassaram 3 bilhões de visualizações. O conteúdo relacionado a livros, considerando outras hashtags e publicações literárias, passou de 12 bilhões de visualizações no mesmo período, segundo um levantamento do Reglab.
Além de retomar um movimento que muita gente achava que essa geração tinha perdido, que é o retorno às livrarias, o BookTok tem contribuído para mudar a maneira como boa parte dos jovens descobre o que ler, conversa sobre literatura e se reconhece como leitora. Vide o movimento recorde da edição deste ano da Bienal Internacional do Livro, em São Paulo.
Mas o que exatamente é o BookTok?
Se você é adulto e não tem muito hábito de frequentar o TikTok, pode achar o termo confuso. Mas, vem, que a gente explica. Primeiro, é importante entender que não existe uma única comunidade ou um grupo fechado. O BookTok é um conjunto de criadores, leitores e conteúdos que se encontram principalmente por meio de hashtags como #BookTok e #BookTokBrasil. Pense em um clube do livro gigantesco, mas virtual, ou seja, você nem precisar estar na mesma cidade ou sequer conhecer as outras pessoas pessoalmente.
Os adolescentes assistem a um vídeo de alguém contando que chorou ao terminar determinado livro e isso gera curiosidade. Então, vão procurar a obra na internet, comprá-la ou pegá-la emprestada e, depois, voltam à plataforma para procurar outras pessoas comentando sobre a história.
O livro virou assunto
Uma das características mais interessantes do BookTok é que ele tira o livro do lugar de objeto que precisa ser lido para uma prova ou de tarefa escolar. A literatura se torna, de novo, entretenimento e experiência compartilhada.
Quando alguém compartilha, por exemplo, que leu uma obra e ficou pensando nela por dias, gera identificação, curiosidade e emoção. É um tipo de recomendação especialmente poderoso entre adolescentes, justamente porque vem não do pai, da mãe ou do professore, mas de pessoas que eles percebem como parte da mesma cultura digital.
Um estudo publicado em 2025 analisou a relação entre BookTokers e intenção de consumo de livros. Os pesquisadores encontraram uma associação entre a atitude positiva em relação às recomendações dos criadores e a intenção de ler. A pesquisa ouviu 663 pessoas que acompanham pelo menos um BookToker e interagem com conteúdo literário na internet.
O retorno dos clássicos
Um dado curioso: o BookTok não se limita a fazer com que adolescentes leiam apenas romances contemporâneos. Clássicos também podem ganhar uma nova vida quando entram no circuito das redes sociais. Foi o que aconteceu, por exemplo, com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.
Em 2024, uma resenha feita por uma criadora norte-americana viralizou no TikTok e ajudou a levar o livro ao topo da lista de mais vendidos da Amazon nos Estados Unidos na categoria de literatura latino-americana. O caso chamou atenção justamente porque uma obra publicada originalmente em 1881 voltou a circular entre um público jovem por meio de uma plataforma de vídeos curtos. O mesmo fenômeno pode se repetir com outros clássicos da literatura nacional e internacional, que passam a ser conhecidos e admirados por novas gerações.
Ler acompanhado
Para algumas crianças e adolescentes, encontrar outras pessoas falando sobre os mesmos livros pode transformar a leitura em uma experiência de pertencimento.
Eles podem discutir se gostam ou não de determinado personagem, discordar do final, compartilhar uma passagem que os emocionou ou procurar outras histórias parecidas.
É uma conversa que extrapola o ambiente da internet. Clubes de leitura presenciais inspirados ou impulsionados pelo BookTok já começaram a aparecer, mostrando como uma comunidade criada nas redes pode ganhar espaço na vida real.
É uma mudança interessante: a tecnologia que tantas vezes é associada ao afastamento e isolamento, sobretudo entre os mais jovens, pode, nesse caso, funcionar como ponto de encontro.
Tendência também requer cuidados
Tudo isso pode ser muito positivo, mas não significa que o BookTok seja uma curadoria literária neutra. É preciso levar em conta que o adolescente não está simplesmente entrando em uma biblioteca digital e escolhendo livremente entre milhares de livros. O que aparece para ele é resultado também dos mecanismos de recomendação da plataforma, além da popularidade dos conteúdos e dos interesses demonstrados anteriormente.
Por isso, determinados livros podem aparecer repetidamente até parecer que “todo mundo” está lendo aquela obra. O TikTok atua como uma espécie de curador informal, ajudando a definir quais títulos, autores e gêneros entram no radar dos leitores.
Para os pais, é um ponto de alerta. O BookTok pode ser uma porta de entrada para a leitura, mas viralização não é sinônimo de qualidade literária, adequação à idade ou obrigação de gostar daquele livro.
Alguns conteúdos também podem abordar romances, violência, sexualidade, sofrimento psicológico ou outros temas que não são adequados para todas as idades. Por isso, principalmente no caso de crianças e adolescentes mais novos, vale conhecer minimamente o que está sendo recomendado antes de comprar ou liberar determinada obra.
Também pode ser uma oportunidade para ensinar algo que vai muito além dos livros: como avaliar uma recomendação que aparece nas redes. Quem está indicando? Por quê? A pessoa está fazendo uma resenha ou uma publicidade? O livro realmente parece interessante ou está aparecendo porque viralizou? Existem outras opiniões?
“Meu filho não gosta de ler”
Antes de repetir a sentença, tente avaliar se não é caso de seu filho estar lendo obras de que não gosta. Uma criança pode rejeitar os livros escolhidos pelos adultos e se apaixonar por histórias de fantasia. Um adolescente pode não se interessar pelos clássicos indicados na escola, mas passar horas lendo romances. Outro pode começar por histórias em quadrinhos, fanfics ou livros que encontrou porque alguém de quem gosta falou sobre eles na internet. O caminho até o livro pode ser diferente para cada leitor.
Nesse sentido, o BookTok oferece uma pista interessante: para uma parte dos jovens, a leitura não esteja competindo com a internet, mas chegando justamente por meio dela.
Para conversar com crianças e adolescentes sobre o BookTok
● Pergunte o que eles estão vendo: em vez de tratar o conteúdo literário como mais um tipo de vídeo no celular, demonstre curiosidade.
● Peça uma indicação: “Qual livro você viu no TikTok e ficou com vontade de ler?” pode render uma conversa muito mais interessante do que “Você precisa ler mais”.
● Conversem sobre as recomendações: explique que um livro viral pode ser ótimo para uma pessoa e não funcionar para outra.
● Olhem a faixa etária e os temas: principalmente entre crianças e adolescentes mais novos, vale verificar o conteúdo antes da leitura.
● Deixe espaço para a emoção: chorar, rir, ficar com raiva de um personagem ou querer discutir o final também faz parte da experiência de leitura.
● Não transforme o BookTok em mais uma obrigação: se a leitura começa a ser uma disputa entre pais e filhos, talvez se perca justamente aquilo que torna o livro interessante para eles.



