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Trocar brinquedos na escola pode ser uma forma divertida de aprender a lidar com dinheiro

Canguru News

De figurinhas e cards a brinquedos colecionáveis, as crianças estão criando suas próprias “regras de negociação” no recreio

7 min de leitura

22 de setembro de 2026

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Trocar brinquedos na escola pode ser uma forma divertida de aprender a lidar com dinheiro

Dá para aproveitar a brincadeira para conversar sobre valor, escolhas e dinheiro

A febre das figurinhas da Copa do Mundo passou quando o torneio acabou, nas a brincadeira de trocar objetos com os amigos continua. E aí é um tal de: “Troquei meu brinquedo por dois!” ou de: “Mas o meu era mais raro!”. Ou ainda: “Eu dei o meu e agora me arrependi”.

 

No recreio, na saída da escola ou durante um encontro com os amigos, trocar objetos pode virar uma brincadeira tão envolvente quanto colecioná-los. Vale para figurinhas, cards, brinquedos pequenos, chaveiros, canetas, borrachas e outros itens podem ganhar um valor especial entre as crianças, que nem sempre tem relação com o preço que os pais pagaram por eles.

 

Para uma criança, aquele card pode valer muito mais do que outro simplesmente porque é difícil de encontrar. Um brinquedo que já foi o favorito pode perder espaço quando aparece uma novidade. Além disso, algo que parece totalmente sem graça para um adulto pode ser o objeto mais desejado do recreio.

 

Mas você já parou para pensar que por trás dessas trocas existe uma verdadeira aula prática sobre valor, desejo, negociação, escolhas e até dinheiro?

 

A diversão das trocas começa pela expectativa. A criança não sabe exatamente o que vai conseguir em uma troca. Será que o colega vai aceitar? Será que vai oferecer outro item? Será que ela vai conseguir aquele objeto que está querendo há dias?

 

Trocar também permite que a criança tenha acesso a coisas novas sem precisar comprar. Para quem ainda não tem autonomia financeira, é uma maneira de experimentar escolhas dentro de um universo relativamente seguro.

 

“Vale a pena trocar?” É aí que a brincadeira fica interessante. Os adultos pensam logo no valor de um objeto pelo preço. Se um brinquedo custou R$ 20 e outro custou R$ 10, por exemplo, poderíamos imaginar que o primeiro vale mais.

 

Mas as crianças mostram que não é tão simples. Um objeto pode ter valor financeiro, mas também pode ter valor emocional e social. Pode ser raro, estar na moda, ser difícil de encontrar ou simplesmente ser muito desejado naquele momento.

 

É parecido com o que acontece em diferentes mercados: o preço não é determinado apenas pelo material usado para fabricar alguma coisa. Escassez, procura e percepção de valor também influenciam as escolhas.

 

As crianças descobrem isso de uma forma concreta enquanto avaliam as possibilidades de troca. Elas percebem, assim, que valor não é uma coisa absolutamente igual para todo mundo. A troca também ensina sobre escolhas. Uma pergunta simples pode acompanhar praticamente qualquer negociação: “Você acha que o que está recebendo vale o que está entregando?” Isso ajuda a criança a pensar antes de decidir, porque toda troca envolve uma escolha. Se ela entrega um brinquedo para conseguir outro, deixa de ter o primeiro.

 

Pode até parecer óbvio para um adulto, mas essa percepção faz parte do desenvolvimento da capacidade de tomar decisões. O mesmo princípio aparece quando, mais tarde, a criança tiver R$ 50 e precisar decidir entre comprar um livro, guardar o dinheiro ou gastar com outra coisa.

 

Escolher uma coisa significa abrir mão de outra e esse é um dos conceitos fundamentais da educação financeira: o chamado custo de oportunidade. O arrependimento, em algum momento, também pode acontecer. A criança troca um brinquedo toda animada e, algumas horas depois, percebe que queria o dela de volta.

 

O primeiro impulso dos pais é querer resolver, procurar o colega, desfazer a troca ou comprar outro brinquedo. Mas, quando não houve coerção, pressão ou algum tipo de exploração, o arrependimento também pode ser uma oportunidade de aprendizado. Em vez de simplesmente dizer “eu avisei”, vale perguntar: “O que fez você querer trocar?”, “Você decidiu rápido?”, “O que você achou que ia sentir depois?”, “Agora que você conhece melhor o outro brinquedo, faria a mesma troca?”.

 

O objetivo não é fazer seu filho se sentir culpado, mas ajudá-lo a entender como tomou aquela decisão. Esse processo é importante porque adultos também fazem escolhas das quais se arrependem — inclusive quando compram alguma coisa por impulso. Assim, talvez eles reflitam melhor antes de fazer isso novamente.

 

“Mas o outro brinquedo era muito mais caro!”

 

Essa é outra situação que pode render uma boa conversa. Imagine que seu filho trocou um brinquedo que custou R$ 30 por outro que custou R$ 15 e está feliz com a troca. Foi um mau negócio? Não necessariamente. Se ele gostava muito mais do brinquedo que recebeu, talvez, para ele, aquela troca tenha feito sentido.

 

É que preço e valor não são exatamente a mesma coisa. Enquanto o preço é a quantia que alguém paga por determinado produto, o valor pode envolver utilidade, preferência, raridade, significado e desejo. Quando a criança aprende essa diferença, ela também começa a entender por que as pessoas fazem escolhas diferentes diante da mesma coisa.

 

Quando a brincadeira deixa de ser saudável?

Nem toda troca entre crianças é uma experiência positiva. Em alguns casos, os pequenos podem se sentir pressionados, enganados, intimidados ou manipulados para entregar alguma coisa.

 

Outra situação que merece atenção é quando as trocas começam a gerar conflitos constantes, competição exagerada ou sofrimento. Tem ainda uma questão prática: as regras da escola. Algumas instituições não permitem que crianças levem determinados brinquedos ou façam trocas durante o período escolar. Nesse caso, a regra deve ser respeitada.

 

Também vale explicar para o seu filho que ninguém precisa trocar nada só porque o outro quer. “Não quero trocar” é uma resposta válida. Aprender a respeitar essa resposta também faz parte da educação financeira — e da educação para a vida.

 

E se a criança quiser trocar tudo?

Talvez ela esteja simplesmente encantada com a brincadeira, mas esta pode ser uma boa oportunidade para estabelecer alguns combinados. Por exemplo: determinados objetos não entram em trocas — como presentes especiais ou itens com valor afetivo.

 

Outra possibilidade é criar uma regra de “pensar antes”: quando a troca envolver um objeto importante, a criança precisa esperar alguns minutos antes de decidir.

 

Os pais não precisam controlar todas as negociações, mas ensinar que nem toda oportunidade precisa ser aproveitada imediatamente. Isso vale para brinquedos. E vai valer para dinheiro também.

 

Quando o filho chega em casa chorando porque “fez uma troca horrível”, é natural querer consertar. Mas aprender a tomar decisões também significa experimentar pequenas consequências. Se a criança entregou um brinquedo de que gostava muito por outro e depois percebeu que preferia o anterior, ela acabou de descobrir alguma coisa sobre si mesma.

 

Talvez tenha percebido que se empolgou com a novidade, dado importância demais ao fato de todo mundo querer aquele objeto ou tenha descoberto que não gosta tanto assim de trocar. Tudo isso é aprendizado. A gente não pode – e nem deve – impedir a criança de errar. O que podemos fazer é ajudá-la a aprender com suas decisões.

 

Quando duas crianças negociam um brinquedo, elas estão fazendo muito mais do que simplesmente passar um objeto de uma mão para outra. Estão descobrindo que as pessoas desejam coisas diferentes, que algo raro pode parecer mais valioso, que novidades podem ser tentadoras, que dá para negociar, que uma escolha implica abrir mão de outra e que, às vezes, uma decisão que parecia ótima naquele momento pode não parecer tão boa depois.

 

Tudo isso pode ser levado para a vida financeira, o que não significa que uma criança que troca figurinhas automaticamente vai se tornar um adulto organizado com dinheiro. A questão é aproveitar as oportunidades do cotidiano para desenvolver habilidades que serão importantes no futuro.

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