Parentalidade
Como foi a escola? Estimule respostas que vão além do “legal” ou “normal”
Canguru News
A forma de conversar pode deixar a criança mais propensa a contar mais detalhes sobre como foi o dia

Algumas mudanças simples na rotina podem favorecer conversas mais espontâneas entre pais e filhos
- Como foi a escola hoje?”
- Legal.
- E o que você fez?
- Nada.
Reconhece esse diálogo? Enquanto os pais ficam interessados e curiosos para saber o que aconteceu no espaço de tempo em que ficaram longe das crianças, elas oferecem respostas vagas e é difícil esticar a conversa. Mas você já parou para pensar que, às vezes, a forma de fazer as perguntas e o momento escolhidos pelos adultos não ajudam?
Depois de horas aprendendo, seguindo regras, convivendo com colegas e professores e lidando com diferentes emoções, algumas crianças precisam primeiro de um tempo para desacelerar antes de contar o que aconteceu.
Algumas mudanças simples na rotina podem favorecer conversas mais espontâneas entre pais e filhos. Aqui, algumas técnicas que você pode tentar:
1. Não faça perguntas assim que a criança sair da escola
Para alguns adultos, buscar o filho na escola parece o momento perfeito para descobrir como foi o dia. Para a criança, porém, pode ser justamente a hora de descomprimir. Depois de seis ou oito horas ouvindo, aprendendo, seguindo instruções, convivendo com outras crianças e administrando emoções, ela pode simplesmente não estar pronta para fazer um relatório sobre tudo o que aconteceu. Por isso, experimente não começar o trajeto com uma sequência de perguntas. Ofereça água ou um lanche, coloque uma música, deixe a criança ficar quieta ou simplesmente olhar pela janela. Pode ser que as histórias apareçam mais tarde, na hora do jantar ou na hora de dormir. Mas de forma espontânea.
2. Seja mais específico
Apesar de parecer uma pergunta aberta e acolhedora, “Como foi seu dia?” pode ser difícil para uma criança responder. Afinal, ela precisa lembrar de horas de acontecimentos, escolher o que considera importante, organizar tudo e transformar as lembranças em uma história. Uma pergunta mais específica pode funcionar como uma porta de entrada para a conversa. Em vez de: “Como foi a escola?” Experimente: “Com quem você sentou no almoço?”, “Qual foi a parte mais divertida do recreio?”, “Aconteceu alguma coisa que te surpreendeu hoje?”. Depois que a criança começa a falar sobre um episódio, outros assuntos podem surgir naturalmente. E nem sempre é necessário fazer uma nova pergunta a cada resposta.
3. Não transforme a conversa em uma reunião
Algumas crianças falam mais quando estão fazendo outra coisa, como desenhar, brincar, comer, ajudar a preparar o jantar ou caminhar com os pais. Para outras, conversar lado a lado é mais confortável do que ficar frente a frente com um adulto que espera uma resposta. A busca por informações pode acontecer justamente nos momentos mais banais: no caminho de volta para casa, enquanto vocês fazem um sanduíche, durante uma caminhada ou antes de dormir.
4. Conte primeiro alguma coisa sobre o seu dia
Quer incentivar seu filho a compartilhar? Mostre que a conversa funciona nos dois sentidos. Em vez de começar perguntando sobre a escola, conte alguma coisa que aconteceu com você. Pode ser algo engraçado, um pequeno erro que cometeu no trabalho ou até uma situação que deixou você nervoso. Depois, a conversa pode seguir naturalmente. A diferença é que a criança deixa de sentir que está sendo entrevistada e percebe que compartilhar experiências faz parte da dinâmica da família. Ela também aprende que é possível falar sobre sentimentos, dificuldades, erros e situações boas sem necessariamente ser julgada.
5. De olho na sua reação
Imagine que, depois de um dia inteiro, seu filho finalmente diga: “Uma criança foi maldosa comigo hoje”. É natural que o primeiro impulso seja querer entender imediatamente o que aconteceu: “Quem foi?”, “O que ela fez?”, “Você contou para a professora?”, “Por que não me contou antes?” Mas uma sequência de perguntas pode fazer a criança se fechar justamente no momento em que decidiu confiar em você. Uma alternativa é começar com algo simples: “Obrigada por me contar.” E, depois: “O que aconteceu?” Isso não significa ignorar o problema ou deixar de agir quando for necessário, mas, primeiro, dar segurança para que a criança consiga terminar de contar a própria história, se sentir encurralada.
É compreensível que os pais queiram saber o que acontece durante as horas em que os filhos estão longe. Mas uma relação de confiança não é construída tentando extrair informações todos os dias. Alguns dias a criança vai contar uma história inteira. Em outros, talvez responda apenas “foi tudo bem”. E isso acontece mesmo. Lembre-se que o mais importante é que ela vá construindo a percepção de que pode falar com os pais, será ouvida e não será imediatamente julgada, ridicularizada ou repreendida. Por isso, em vez de transformar cada volta da escola em um interrogatório, vale manter a porta aberta: fazer perguntas menores, compartilhar também as próprias experiências e aproveitar os momentos comuns do dia para estar junto.



