Cuidados com a Saúde
Criança que fala errado: 5 sinais de que é hora de procurar um fonoaudiólogo
Canguru News
Trocas de sons são comuns, mas se a fala é difícil de entender, não evolui ou gera frustração, vale buscar avaliação

Por volta dos 4 anos, a fala já costuma ser facilmente compreendida
“Tatola” em vez de “sacola”, “pato” no lugar de “prato” e outras trocas de sons rendem histórias engraçadas. Morro de saudade de quando minha filha falava “picoca”em vez de “pipoca” e confesso que até fiquei triste quando ela deixou de falar “guliça” porque aprendeu que o certo era “linguiça”. Nos primeiros anos, é esperado que a criança ainda esteja aprendendo a organizar os sons da língua. Mas como saber quando uma fala que parece “fofa” deixa de ser apenas uma etapa do desenvolvimento e merece atenção?
Para a fonoaudióloga infantil Adriana Fiore, mais importante do que esperar que a criança fale perfeitamente é observar se existe evolução ao longo do tempo. “Nos primeiros anos, a criança está organizando os sons da língua e aprendendo a coordenar movimentos dos lábios, da língua e da mandíbula. Algumas simplificações são naturais, mas a fala precisa amadurecer, ganhar novos sons e ficar cada vez mais clara”, explica.
De modo geral, por volta dos 4 anos, espera-se que a criança seja compreendida com facilidade também por pessoas que não convivem com ela diariamente. Ainda assim, cada criança tem seu ritmo de desenvolvimento, e uma troca isolada não significa necessariamente que exista um problema.
O que merece atenção é quando as dificuldades são persistentes, interferem na comunicação ou vêm acompanhadas de outros sinais. A seguir, a especialista explica cinco situações em que pode ser indicado procurar um fonoaudiólogo.
1. Poucas pessoas entendem o que a criança fala
Se apenas pais, irmãos e outras pessoas muito próximas conseguem compreender o que a criança diz, ou se os familiares precisam constantemente “traduzir” sua fala para outras pessoas, pode ser hora de investigar. “Quando a criança precisa repetir muitas vezes e, mesmo assim, não é compreendida, ela pode começar a sentir vergonha, irritação ou evitar situações nas quais precisa falar”, alerta Adriana. Mais do que uma pronúncia perfeita, o objetivo é que a fala se torne progressivamente mais clara e permita que a criança consiga participar das conversas e interações do dia a dia.
2. As trocas continuam e não diminuem
Trocar ou simplificar alguns sons faz parte do processo de aquisição da fala. O sinal de atenção aparece quando os erros permanecem frequentes durante muito tempo e não há uma evolução perceptível. Por isso, em vez de comparar o filho com outra criança da mesma idade, os pais podem observar o próprio desenvolvimento: ele está conseguindo produzir novos sons? Está sendo compreendido com mais facilidade? As trocas estão diminuindo?
3. A criança fala poucas palavras ou tem dificuldade para formar frases
Aqui é importante diferenciar fala de linguagem. “Fala é a maneira como pronunciamos os sons. Linguagem envolve compreender e comunicar ideias, sentimentos e desejos. Essa diferença é importante para definir o tipo de acompanhamento necessário”, esclarece Adriana. Se além das trocas na pronúncia os pais percebem que a criança tem dificuldade para se comunicar de maneira mais ampla, conversar com um profissional pode ajudar.
4. Falar virou motivo de frustração
A maneira como a criança se sente ao tentar se comunicar também importa. Irritação frequente, vergonha, recusa em falar, necessidade constante de que os pais expliquem o que ela quis dizer ou afastamento de brincadeiras e conversas podem indicar que a dificuldade está interferindo na vida cotidiana. “Quando o problema persiste, pode afetar a participação social, a aprendizagem, a alfabetização e a autoestima. Procurar ajuda cedo não é antecipar um problema, mas evitar que ele ocupe um espaço maior na vida da criança”, afirma Adriana.
5. A fala parece estar parada no tempo
Os pais podem observar se ela está adquirindo novos sons, se consegue pronunciar palavras que antes eram difíceis e se outras pessoas passaram a compreendê-la melhor. Quando esse progresso não acontece, uma avaliação pode ajudar a entender o que está acontecendo. “Muitas vezes, a avaliação serve para orientar a família, acompanhar o desenvolvimento e trazer tranquilidade. Se houver necessidade de intervenção, começar cedo pode fazer uma diferença importante”, explica a fonoaudióloga.
Como estimular a fala em casa?
O dia a dia oferece diversas oportunidades para estimular a comunicação sem transformar o momento em uma aula ou ficar corrigindo a criança a cada palavra. Aqui, algumas dicas que podem ajudar:
Converse olhando para ela. Durante as interações, mantenha contato visual e demonstre interesse pelo que a criança está tentando contar.
Leia histórias juntos. Livros ajudam a ampliar o vocabulário e criam oportunidades para conversar sobre personagens, situações e acontecimentos.
Nomeie o que está ao redor. Durante o banho, as refeições ou um passeio, por exemplo, os adultos podem apresentar novas palavras e falar sobre o que estão fazendo.
Dê tempo para a criança falar. Evite completar imediatamente suas frases ou responder por ela. Mesmo que demore um pouco, permitir que tente se expressar é importante.
Em vez de corrigir, modele a palavra. Se a criança disser “pato” querendo dizer “prato”, por exemplo, o adulto pode simplesmente responder naturalmente: “Você quer o prato? Eu vou pegar o prato para você”. Assim, ela ouve a pronúncia correta sem transformar a conversa em uma sequência de correções.
Alimentação e hábitos também merecem atenção
Segundo Adriana, o desenvolvimento da fala está relacionado a movimentos coordenados de estruturas como lábios, língua e mandíbula. Por isso, a alimentação e alguns hábitos orais também fazem parte desse processo. A especialista recomenda que a criança tenha contato com consistências adequadas para cada fase do desenvolvimento e oportunidades para mastigar diferentes texturas.
Já o uso prolongado de chupeta e mamadeira e uma alimentação mantida por muito tempo apenas em consistências muito pastosas podem interferir no desenvolvimento desses movimentos, segundo ela.



