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Pisa 2025: 5 coisas que a principal avaliação internacional da educação revela sobre a vida escolar dos nossos filhos
Canguru News
Os resultados da avaliação da OCDE mostram desafios e avanços na aprendizagem de adolescentes brasileiros

O Pisa é uma avaliação que verifica o que estudantes de 15 anos sabem e conseguem fazer em áreas como Ciências, Matemática e Leitura
Você tem visto notícias sobre o resultado do Pisa nos jornais ou nas redes sociais? O primeiro destaque costuma ser para o ranking. Todo mundo quer saber em que posição o Brasil ficou na avaliação do nível de educação. Mas o que será que esses resultados mostram sobre o que nossos filhos estão aprendendo. Mais do que isso: será que eles revelam algo importante sobre as habilidades de que as crianças e adolescentes brasileiros vão precisar desenvolver dentro e fora da escola?
Calma, que a gente te ajuda a entender tudo o que você precisa saber sobre o assunto. Primeiro, é importante entender que o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) é uma avaliação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que verifica o que estudantes de 15 anos sabem e conseguem fazer em áreas como Ciências, Matemática e Leitura.
A proposta não é simplesmente testar se eles decoraram o conteúdo escolar, mas verificar até que ponto conseguem aplicar conhecimentos e habilidades em situações da vida real. Em 2025, mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias participaram da avaliação. No Brasil, foram 30.140 estudantes de 1.053 escolas, que representam cerca de 2,18 milhões de jovens de 15 anos.
Aqui no Brasil, os resultados de 2025 ficaram próximos aos de 2022 nas três áreas. Embora existam avanços quando se olha para um período mais longo, o cenário atual também aponta dificuldades importantes. O relatório traz informações que dizem bastante sobre a escola e sobre a relação das famílias com ela.
1. Seu filho sabe fazer conta. Mas consegue usar a matemática para resolver problemas?
Uma das principais mensagens do Pisa é que aprender matemática é muito mais do que saber realizar operações. No Brasil, 28% dos estudantes atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em Matemática, considerado o patamar mínimo de domínio avaliado pelo Pisa. Na média dos países da OCDE, esse percentual foi de 65%. Nesse nível, o estudante consegue, por exemplo, interpretar uma situação simples e reconhecer como ela pode ser representada matematicamente, como comparar a distância de duas rotas ou converter preços entre moedas.
A diferença ajuda a explicar por que uma criança ou adolescente pode conseguir resolver uma conta no caderno e, ainda assim, ter dificuldade quando a matemática aparece em uma situação cotidiana.
Estimular o raciocínio matemático não é transformar a casa em uma segunda sala de aula. Comparar preços no supermercado, calcular quanto tempo falta para sair, dividir uma receita ou planejar uma viagem são situações que também envolvem matemática. Incentive seu filho.
2. Quem sabe ler não necessariamente compreende o que está escrito
Outro dado chama atenção: 49% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 em Leitura, contra 69% na média da OCDE. Nesse patamar, o estudante consegue identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada e encontrar informações apresentadas de forma explícita. Nos níveis mais altos, porém, as habilidades ficam mais complexas: o aluno precisa lidar com textos longos, conceitos abstratos e até distinguir fato de opinião a partir de pistas implícitas relacionadas ao conteúdo ou à fonte.
É uma diferença importante para a vida além da escola. Afinal, ler não significa apenas decodificar palavras. Um adolescente precisa conseguir compreender uma notícia, interpretar uma informação encontrada na internet, perceber quando um argumento não faz sentido e avaliar de onde veio determinado conteúdo.
Por isso, ler com os filhos, conversar sobre histórias, perguntar o que eles entenderam de uma notícia ou discutir diferentes pontos de vista também são formas de trabalhar habilidades relacionadas à leitura, mesmo quando não existe uma lição de casa envolvida.
3. A condição socioeconômica importa
O Pisa também ajuda a lembrar que nem todas as crianças começam do mesmo ponto. No Brasil, os estudantes dos 25% mais favorecidos socioeconomicamente tiveram desempenho 96 pontos superior, em Ciências, ao dos 25% menos favorecidos. A diferença média entre esses grupos nos países da OCDE foi de 85 pontos. O status socioeconômico explicou 16% da variação no desempenho em Ciências no Brasil, enquanto a média da OCDE foi de 12%.
Fatores que estão fora do caderno também podem influenciar as oportunidades de aprendizagem: condições de moradia, acesso a recursos, escolaridade dos responsáveis, possibilidades culturais e outros aspectos da vida da criança. O desempenho escolar não pode ser colocado apenas na conta do esforço individual do estudante ou do quanto os pais conseguem acompanhar as tarefas.
4. Apoio da família
Essa talvez seja uma das informações que mais diretamente conversa com mães e pais. O Pisa mostrou que 51% dos estudantes brasileiros disseram que seus pais ou responsáveis perguntavam pelo menos uma vez por semana o que haviam feito na escola em 2025. Em 2022, eram 62%. Também caiu a proporção de adolescentes que relataram conversar semanalmente com os pais sobre problemas que poderiam ter na escola: de 55% em 2022 para 41% em 2025. A redução no apoio familiar foi observada em quase todos os países e economias participantes do Pisa.
Não é que os pais simplesmente “deixaram de acompanhar” os filhos. O Pisa registra a percepção dos próprios estudantes e não explica sozinho por que essa mudança aconteceu. Ainda assim, abre uma reflexão interessante: acompanhar a vida escolar não é fiscalizar nota, tarefa e prova todos os dias. É perguntar o que teve de interessante na escola hoje, saber com quem o filho convive, perceber mudanças de comportamento e abrir espaço para que ele conte quando alguma coisa não vai bem também fazem parte desse acompanhamento.
5. A inteligência artificial já chegou à rotina de estudos
No Brasil, 48% dos estudantes disseram usar chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para ajudá-los a aprender, percentual próximo da média da OCDE, de 46%. Outros usos também são comuns: 40% afirmaram utilizar IA para fazer uma pesquisa inicial sobre um assunto novo; 31%, para resumir um texto que precisavam ler; e 27%, para elaborar um rascunho de trabalhos escritos.
A análise da OCDE mostra que a relação entre uso de inteligência artificial e desempenho é complexa. O relatório destaca que o uso intencional e moderado pode ser diferente do uso excessivo ou sem orientação, e que simplesmente ampliar o acesso à ferramenta não garante ganhos de aprendizagem.
O questionamento que fica para as famílias não é simplesmente sobre usar ou não a IA para fazer a lição, mas: será que as crianças e adolescentes estão aprendendo a usar essa ferramenta sem deixar de pensar por conta própria? Ensinar a questionar uma resposta, conferir uma informação, procurar a fonte original e identificar possíveis erros de um chatbot pode ser tão importante quanto ensinar a fazer uma pesquisa na internet.
O que o Pisa não mostra
Antes de olhar para os números e tirar conclusões sobre o nível educacional das crianças, vale lembrar que o Pisa não é uma avaliação individual. Ele trabalha com uma amostra de estudantes de 15 anos e produz informações sobre o desempenho dos sistemas educacionais e sobre fatores relacionados à aprendizagem. No Brasil, os mais de 30 mil participantes representam uma população estimada de cerca de 2,18 milhões de estudantes dessa idade. Por isso, o resultado não permite dizer se seu filho está aprendendo bem ou mal, nem substituir as avaliações feitas pela escola.
Na verdade, é como se ele mostrasse uma fotografia ampla de como adolescentes brasileiros estão lidando com conhecimentos e habilidades fundamentais para a vida — e dos obstáculos que podem estar interferindo nesse processo.
Não é uma nota para o Brasil ou para uma geração, mas um convite para perguntar que tipo de aprendizagem estamos ajudando nossos filhos a construir — dentro e fora da escola.



