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Estudo mostra que violência pode acompanhar adolescente da escola para as telas
Canguru News
Pesquisa com 4,2 mil estudantes revela que jovens envolvidos em diferentes formas de bullying têm risco muito maior de apresentar sofrimento psicológico

Bullying e cyberbullying são considerados crimes pela legislação brasileira por meio da Lei nº 14.811
Acompanhar o uso que crianças e adolescentes fazem das redes, dos aplicativos e dos grupos de mensagens, além de estabelecer um limite de tempo, é importante. Mas uma nova pesquisa traz um alerta para os pais: nos casos de cyberbullying, muitas vezes o problema não está apenas no ambiente digital. Ele pode ser uma extensão de uma violência que já acontece na escola.
O estudo, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 4,2 mil adolescentes, mostrou que as fronteiras entre bullying presencial e cyberbullying podem ser muito mais próximas do que imaginamos. A pesquisa identificou diferentes perfis de envolvimento com a violência e encontrou uma associação especialmente preocupante entre os adolescentes que, ao mesmo tempo, sofrem e praticam agressões em diferentes contextos — na escola e na internet. Os resultados foram publicados na revista científica Psychiatry Research e divulgados pela Agência FAPESP.
Na pesquisa, 48% dos estudantes estavam em um grupo sem envolvimento relevante com violência. Outros 46% sofriam bullying na escola com frequência e, em alguns casos, também praticavam agressões, mas raramente se envolviam com cyberbullying. Já 6% dos adolescentes foram classificados como vítimas-agressores em múltiplos contextos. São aqueles que transitam entre os dois lados da violência — podem sofrer e praticar agressões — tanto no ambiente físico quanto no digital.
Esse grupo menor apresentou os indicadores mais preocupantes. Entre os adolescentes envolvidos em múltiplos contextos de violência, 52,4% apresentavam sintomas psicológicos em nível clínico, contra 12,5% entre aqueles sem envolvimento com bullying. Segundo os pesquisadores, isso representa uma associação com 11 vezes mais chance de apresentar esse tipo de sofrimento.
A pesquisa também encontrou uma maior associação com o consumo de álcool, tabaco e outras drogas. Segundo os dados divulgados pela Agência FAPESP, sete em cada dez adolescentes desse grupo já haviam consumido álcool alguma vez na vida, e o uso de cigarro era quase três vezes mais frequente do que entre os estudantes sem envolvimento com agressões.
Não é só uma “briga de escola”
Você pode até pensar: “Eles brigaram na escola, mas pelo menos em casa meu filho está seguro”. O problema é que, com celulares e redes sociais, a fronteira entre esses dois mundos praticamente desapareceu. Uma discussão que começa no recreio pode continuar no grupo da turma, assim como uma exclusão que acontece na sala pode se transformar em uma mensagem no WhatsApp ou um comentário sobre aparência feito no corredor pode virar uma sequência de piadas e humilhações on-line.
“A violência acontece com o mesmo jovem na escola e pela internet, apontando que o cyberbullying costuma ser uma extensão do conflito presencial”, explicou à Agência FAPESP a professora Zila Sanchez, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp e coordenadora do estudo.
Por isso, segundo a pesquisadora, não basta pensar em programas separados para bullying, saúde mental e prevenção ao uso de drogas.
Essas questões podem estar conectadas e precisam ser observadas em conjunto.
Como saber se alguma coisa está acontecendo?
Essa talvez seja a parte mais difícil para nós, pais. Nem sempre um adolescente chega em casa e conta que está sendo excluído, humilhado ou ameaçado. Muitas vezes, ele pode até tentar esconder o que está acontecendo. Segundo Zila Sanchez, mudanças de comportamento são comuns durante a adolescência e nem toda irritabilidade ou isolamento significa que existe um problema grave. O sinal de alerta aparece quando essas mudanças se tornam frequentes e começam a prejudicar os estudos, a convivência ou outras áreas da vida.
Por isso, vale prestar atenção quando aquele adolescente que costumava conversar com a família passa a se isolar constantemente; quando deixa de querer ir à escola; fica mais agressivo ou irritado; perde o interesse por atividades de que gostava; ou apresenta mudanças importantes na rotina.
Também é importante lembrar que bullying não é apenas uma agressão física. A pesquisa destaca situações como exclusão social frequente, humilhações, comentários sobre aparência ou peso, insultos e até esconder objetos. São comportamentos que podem passar despercebidos pelos adultos, mas que, quando são recorrentes e intencionais, podem fazer parte de uma situação de bullying.
A pesquisa não encontrou diferença significativa no tempo de tela entre os grupos analisados. A maioria dos adolescentes passava quatro horas ou mais por dia on-line, mas a quantidade de horas, sozinha, não foi suficiente para explicar quem estava mais exposto ao cyberbullying.
Não que o tempo de tela não seja relevante, mas, além disso, é preciso entender o que está acontecendo, com quem o adolescente está conversando, de que grupos participa e o que acontece nesses espaços. Ele está sendo excluído, provocado ou humilhado? Está fazendo isso com alguém?
Segundo a pesquisadora, muitas vezes os pais acreditam que simplesmente tirar o filho das telas será suficiente para protegê-lo. Mas a proteção também passa por compreender o que o adolescente está fazendo e com quem está interagindo.
Não existe uma conversa única capaz de prevenir todos os problemas da adolescência. Mais do que esperar que nosso filho procure ajuda quando alguma coisa der errado, precisamos construir uma relação em que ele saiba que pode contar suas experiências sem medo de ser imediatamente julgado ou ter o celular confiscado.
Observar não significa invadir, já que um adolescente precisa de privacidade. O ponto é que ele não deve ficar sozinho diante de uma situação de violência. Quando houver sinais persistentes de sofrimento, procurar ajuda profissional é importante.
Bullying é crime no Brasil
Bullying e cyberbullying são temas tão sérios, que passaram a ser considerados crimes pela legislação brasileira em 2024, por meio da Lei nº 14.811. A legislação passou a tipificar a intimidação sistemática e a intimidação sistemática virtual quando praticadas de forma intencional e repetitiva, envolvendo violência física ou psicológica.
Dados citados pela Agência FAPESP mostram que, em 2025, foram registrados 4.549 casos policiais de bullying contra crianças e adolescentes no Brasil, além de 677 registros de cyberbullying. Os números representaram aumentos em relação ao ano anterior, embora parte desse crescimento pode estar relacionado à aplicação da nova legislação e ao registro de casos que chegam às autoridades.
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, também apontou crescimento na proporção de estudantes que declararam sofrer bullying: de 23% em 2019 para 27% em 2024.
A mesma turma que está no corredor pode estar no grupo de mensagens. A mesma brincadeira que machuca no recreio pode continuar à noite. E aquela criança que chega em casa aparentemente protegida pode continuar vivendo a violência dentro do próprio quarto, pelo celular.
Por isso, combater o cyberbullying também significa olhar para as relações que nossos filhos estão construindo fora e dentro das telas. Mais do que controlar o aparelho, precisamos estar disponíveis para enxergar o que está acontecendo por trás dele.



