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Parentalidade

Nem todo livro é adequado para crianças: por que os pais precisam saber o que os filhos estão lendo

Canguru News

É fundamental os pais saberem o que crianças e adolescentes estão lendo e conversar sobre isso sem transformar o assunto em tabu

7 min de leitura

25 de agosto de 2026

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Nem todo livro é adequado para crianças: por que os pais precisam saber o que os filhos estão lendo

Crianças e adolescentes precisam de livros que ampliem seu repertório

"Ai que bom que meu filho ou minha filha está lendo, em vez de estar no celular”. Em uma geração em que a batalha contra as telas é tão grande, ver uma criança ou adolescente com um livro nas mãos traz um alívio imediato. Um sopro de esperança. E é mesmo. Criar crianças e adolescentes leitores é algo a ser valorizado. A leitura amplia repertório, dá asas à imaginação, favorece o desenvolvimento da linguagem e pode ser uma fonte importante de prazer e conhecimento. Além disso, estimula o funcionamento do cérebro, de uma forma totalmente diferente da dopamina rápida e o efeito “brainrot” das telas e dos vídeos curtos.

 

Mas você sabe o que seu filho está lendo? Pais e especialistas têm feito alertas nas redes sociais sobre livros que circulam nas redes sociais e viram febre. Eles têm cara de romance adolescente, com capas bonitinhas, títulos açucarados... Mas lá dentro há conteúdos totalmente inadequados para a idade, como violência sexual, abuso, coerção, tortura, perseguição e relações de extrema dominação.

 

O subgênero tem até nome: dark romance. São histórias de romance com elementos sombrios que, dependendo da obra, podem abordar violência, relações de poder, obsessão e práticas sexuais explícitas. Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro publicada em 2026 analisou justamente a expansão do dark romance entre leitores jovens e sua circulação em redes como TikTok e comunidades de BookTok. O trabalho destaca a presença de violência, erotização do perigo e fantasias de dominação, mas também ressalta que ainda existem lacunas importantes nas pesquisas sobre os efeitos desse consumo entre adolescentes.

 

Não existe base científica para afirmar que ler uma obra de ficção violenta fará uma criança ou adolescente se tornar violento ou aceitar automaticamente relações abusivas. A questão é que, durante a adolescência, meninos e meninas estão construindo referências sobre amor, desejo, intimidade, corpo, consentimento e relacionamentos. As histórias que consomem fazem parte desse repertório cultural — ao lado da família, da escola, dos amigos, das redes sociais e de outras mídias.

 

Um personagem que persegue, controla, ameaça ou agride pode fazer parte de uma história. Isso, por si só, não transforma a obra em um problema. O problema é quando a narrativa apresenta esses comportamentos como violência e permite ao leitor questioná-los ou se os transforma em sinais de paixão, intensidade ou "amor verdadeiro".

 

Pesquisas sobre literatura para jovens já investigaram justamente a representação da violência sexual e de gênero em romances destinados a adolescentes. Um estudo publicado em 2025, por exemplo, analisou 20 romances young adult e concluiu que determinadas representações podem reproduzir ideias associadas à cultura do estupro quando a violência sexual é tratada como um problema individual e não há responsabilização adequada dos agressores.

 

Outras pesquisas também mostram que adolescentes podem naturalizar comportamentos de controle e posse dentro de relacionamentos. Um estudo brasileiro publicado na Revista da Escola de Enfermagem da USP identificou, entre adolescentes entrevistados, situações em que a violência simbólica contra meninas era legitimada nas relações afetivas.

 

A conversa sobre livros não precisa ser uma discussão sobre "livros bons" ou "livros ruins" e muito menos de censura ou proibição. Pode ser uma oportunidade de ensinar a criança ou o adolescente a ler criticamente. "Você acha que esse personagem está cuidando dela ou controlando?"/ "Ela realmente pode dizer não?"/ "Por que esse comportamento é apresentado como romântico?"/ "Como você se sentiria se alguém fizesse isso com você?".

 

São perguntas que ajudam a separar fantasia de realidade sem transformar a curiosidade do jovem em motivo de vergonha.

 

Mas, muitas vezes, o adulto nem sabe o que está sendo lido Um adolescente pode descobrir uma obra em uma rede social, receber uma indicação de um amigo, acessar uma plataforma de leitura aberta, baixar um ebook ou encontrar uma história em um catálogo digital sem que os pais sequer conheçam o título.

 

Outra questão: o mercado de autopublicação tornou muito mais simples colocar um livro à venda. A inteligência artificial amplia ainda mais esse cenário. Em 2026, a proliferação de livros produzidos com auxílio de IA chegou a gerar alertas no mercado editorial. Reportagem da CNN Brasil mostrou que a Amazon passou a limitar a quantidade de livros que um autor pode publicar diariamente no Kindle Direct Publishing, em meio à enxurrada de obras geradas por inteligência artificial. Também foram relatados casos de ebooks com erros e problemas que levantam dúvidas sobre a qualidade do processo de produção e revisão.

 

Quando qualquer pessoa consegue produzir e disponibilizar rapidamente uma quantidade enorme de conteúdo, capa bonita, título atraente e muitas avaliações deixam de ser suficientes para que um adulto saiba exatamente o que está colocando nas mãos de uma criança.

 

E não é só o dark romance. O fenômeno chama atenção porque o dark romance é particularmente popular nas redes sociais e porque algumas obras associadas ao gênero apresentam conteúdo sexual e violento, mas o princípio vale para qualquer gênero.

 

Uma obra de fantasia pode conter violência intensa. Um romance pode abordar abuso. Uma fanfic pode ter conteúdo sexual. Um livro aparentemente infantil pode apresentar informações inadequadas ou ter sido produzido sem revisão cuidadosa.

 

O objetivo vai além de identificar apenas o dark romance. É ensinar a família a desenvolver uma espécie de alfabetização literária e digital. É preciso saber quem escreveu, quem publicou, para qual idade foi pensado, existe indicação de conteúdo, como esses temas são tratados?

 

No Brasil, a classificação indicativa do Ministério da Justiça não funciona da mesma maneira para todos os tipos de livros. O sistema alcança, por exemplo, produtos audiovisuais, jogos eletrônicos e aplicativos; há também classificação específica para livros de RPG.

 

O Estatuto da Criança e do Adolescente, por sua vez, estabelece no artigo 78 que revistas e publicações com material impróprio ou inadequado para crianças e adolescentes devem ser comercializadas em embalagem lacrada, com advertência sobre o conteúdo. O texto também determina proteção opaca para capas com mensagens pornográficas ou obscenas.

 

No ambiente digital, a discussão ganhou uma nova dimensão com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, que entrou em vigor em março de 2026. A lei criou novas obrigações para serviços digitais relacionados à proteção de crianças e adolescentes, incluindo mecanismos de supervisão parental e aferição de idade.

 

O Ministério da Justiça também estabeleceu regras de classificação indicativa para aplicativos e jogos e prevê que a política considere riscos relacionados ao conteúdo, à privacidade, à segurança e à saúde física e mental de crianças e adolescentes em ambientes digitais.

 

Ou seja: a proteção digital está avançando, mas a responsabilidade continua sendo da família.

 

Incentivar a leitura continua sendo importante, mas é preciso lembrar que ler, por si só, não torna qualquer conteúdo benéfico. Crianças e adolescentes precisam de livros que ampliem seu repertório, mas também precisam desenvolver ferramentas para interpretar aquilo que encontram.

 

O adolescente pode não estar procurando "violência". Pode estar procurando uma história intensa, uma personagem com a qual se identifica, uma narrativa que seus amigos estão comentando ou simplesmente algo que desperte curiosidade.

 

O papel do adulto não é só dizer "isso é proibido", mas perguntar: "O que você está achando disso?". A melhor estratégia não é transformar cada livro em uma investigação, mas construir uma relação em que a criança ou o adolescente saiba que pode conversar com os adultos sobre aquilo que encontrou.

 

Antes de comprar ou baixar um livro:

●     Pesquise o título e o autor.

●     Procure resenhas e alertas de conteúdo.

●     Veja se existe indicação de faixa etária.

●     Leia a sinopse — e, quando possível, algumas páginas.

●     Observe se a obra é publicada por uma editora ou disponibilizada por autopublicação.

●     Em livros digitais, verifique as ferramentas de controle parental disponíveis no dispositivo ou serviço utilizado.

●     Não confie apenas na capa, na categoria ou na recomendação de uma rede social.

 

Depois que a criança começou a ler:

●     Pergunte o que ele está achando da história.

●     Conheça os personagens.

●     Converse sobre comportamentos que parecem românticos, mas podem representar controle ou violência.

●     Explique consentimento, respeito e limites de maneira adequada à idade.

●     Não ridicularize o gosto literário da criança ou do adolescente.

●     Se encontrar conteúdo sexual explícito ou violento inadequado para a idade, converse sobre o motivo pelo qual aquele conteúdo não é apropriado naquele momento — em vez de simplesmente mandar esconder o livro.

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