Parentalidade
Quase 2 milhões de crianças nunca ouviram música ao vivo: por que isso importa para o desenvolvimento?
Canguru News
Especialistas alertam que o acesso à música vai muito além do entretenimento e contribui para a linguagem, a aprendizagem e o bem-estar infantil

Estudo britânico revela que quatro em cada dez crianças não assistiram a nenhuma apresentação musical no último ano.
Ir a um show, assistir a uma apresentação de orquestra na escola ou ouvir uma banda tocar em uma praça pode parecer apenas um momento de lazer. Mas, para as crianças, essas experiências têm um impacto que vai muito além da diversão. Uma nova pesquisa realizada no Reino Unido acendeu um alerta: cerca de 2 milhões de crianças não tiveram a oportunidade de vivenciar apresentações de música ao vivo, no país. O levantamento, conduzido pela instituição Playground Proms com mil alunos de escolas públicas entre 7 e 11 anos, mostrou que 40% não assistiram a nenhum espetáculo musical no último ano.
Os principais obstáculos são o preço dos ingressos e a distância dos locais onde acontecem os eventos, segundo o estudo. Estes motivos impedem o acesso à música para duas em cada cinco crianças.
Pode parecer supérfluo, mas assistir a um concerto ou a uma apresentação musical é uma experiência que estimula diferentes áreas do desenvolvimento infantil. Para a fundadora da Playground Proms, Cathal Ó Dúill, os resultados revelam um problema maior do que a falta de acesso à cultura. "A pesquisa expõe uma realidade preocupante: muitas crianças estão sendo excluídas da música. Quando quase metade delas deixa de ter acesso à música ao vivo por causa do custo ou do lugar onde mora, não estamos falando apenas de uma lacuna cultural, mas de uma falha sistêmica", defende.
Isso importa porque ouvir música e, principalmente, ter contato com apresentações ao vivo favorece habilidades como linguagem, concentração, memória, regulação emocional e engajamento escolar.
O acesso depende muito da região onde a criança vive. Em Londres, por exemplo, 68% das crianças haviam assistido a apresentações musicais ao vivo no último ano. Já no nordeste da Inglaterra, esse índice caiu para 43%. Os pesquisadores classificam essa diferença como uma espécie de "loteria do CEP", em que as oportunidades culturais variam conforme o endereço da família.
A pesquisa também investigou o contato das crianças com instrumentos musicais. Quase um terço (29%) disse não ter acesso a um instrumento para praticar em casa. Mesmo assim, entre aquelas que não possuem esse recurso, 66% afirmaram que gostariam de aprender a tocar. Para os pesquisadores, isso indica que o principal problema não é a falta de interesse, mas sim a falta de oportunidades.
Outro resultado curioso foi a forma como as crianças enxergam a música, especialmente a música clássica. Embora muitas tenham associado essa experiência a sentimentos positivos, como relaxamento, felicidade e prazer, parte delas ainda acredita que esse universo "não é para pessoas como elas".
Segundo o levantamento:
● 23% disseram que a música faz com que se sintam relaxadas;
● 22% afirmaram que gostam desse tipo de música;
● 19% disseram que ela as deixa felizes;
● 16% a consideram "chata" ou "coisa de gente mais velha";
● 7% acreditam que ela é "para pessoas com dinheiro";
● 6% disseram que "não é para pessoas como elas".
E no Brasil?
Embora a pesquisa tenha sido realizada no Reino Unido, ela levanta uma reflexão importante para qualquer país, incluindo, é claro, o Brasil: o acesso à cultura também faz parte do desenvolvimento infantil.
Nem sempre é possível levar os filhos a grandes shows ou espetáculos, mas pequenas experiências já fazem diferença. Assistir a uma apresentação na escola, participar de festivais culturais do bairro, visitar concertos gratuitos em parques, centros culturais, Sescs ou praças e ouvir diferentes estilos musicais em família são formas de ampliar o repertório das crianças.
A música não é “só” uma atividade artística. Ela é uma ferramenta importantíssima de aprendizagem



